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Há quem diga que existem vivências com a capacidade de serem partilhadas de maneira análoga por diferentes seres humanos. Já que os homens de mesma origem partilham palavras semelhantes, os mal-entendidos deveriam ser incomuns e não tão sérios como os que ocorrem. Porém, o que se vê com a crescente globalização do mundo, que coloca diferentes culturas em contato direto, é o aumento dessas divergências linguísticas: o que se entende em um lugar, noutro pode-se perceber o oposto. Além dessas discordâncias, é fato que existem percepções de certos indivíduos incapazes de serem compreendidas pelos outros. O que se passa dentro de cada ser, em algum âmbito, é inacessível ao outro.

É inegável o esforço técnico para reduzir as diferenças entre línguas próximas, como a tentativa que ocorreu com o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa – o qual regulariza a forma de escrita do português nos países que o têm como língua principal. Ainda não se sabe qual a abrangência das modificações, porém, elas estão ocorrendo.

Um exemplo clássico desse universalismo na linguagem é o escritor mineiro Guimarães Rosa, diplomata na Alemanha durante o período do Nazismo. É evidente sua experiência com diferentes culturas, apesar disso, para representar os sentimentos considerados universais ele recorreu às particularidades regionais do sertão brasileiro.

O reconhecimento mundial de Guimarães Rosa questiona a temática “OS LIMITES DA MINHA LINGUAGEM SIGNIFICAM OS LIMITES DO MEU MUNDO”. Afinal, com o auxílio de um tradutor, a língua pode se adaptar à peculiaridades de outras ao redor do mundo, e todos teriam acesso ao mundo do sertão. Contudo, apesar de adotarem o mesmo significado para os objetos dentro dos níveis de discurso, a vivência que se tenta transmitir através de um texto é baseada na própria soma de conhecimentos do autor. Prática esta que delimita o sentido do receptor, o leitor. Permite-se apenas a intereriorirização das observações do outro. Logo, o limite do mundo individual é expandido apenas na proporção que lhe é oferecida através da experiência – externamente passiva – da leitura ou da vivência prática do que se pretende aperfeiçoar.

LUIZ FELIPE PONDÉ

Para o Hamas, crianças palestinas mortas nada mais são do que heróis martirizados

LAMENTO , mas não vou ter com você, leitor sensível, uma conversa de salão sobre o ódio em Gaza. Conversas de salão são aquelas onde políticos, éticos de plantão e amantes da humanidade desfilam sua indignação chique com o descaso das guerras com a dignidade humana -é fácil discutir o quintal alheio. Como sou um simples colunista, devo levar você, caro leitor sensível, para fora do salão e ter consigo aquele tipo de conversa que foge aos salamaleques das festas. Veja em mim alguém que simplesmente não gosta de festas.
O ódio no Oriente Médio tem milhares de anos. O nome dele hoje é Gaza, Hamas, Israel. Todo mundo acha que sabe como solucioná-lo. Os últimos que tiveram algum sucesso foram os romanos.
Em meio a este ódio milenar, a verdade é, como diria o historiador francês Renan, “uma nuance entre mil erros”. Diante da delicadeza dessa verdade, esboçarei dez pequenas teses sobre este ódio.
Não sofro da mania científica, graças ao ceticismo, que em mim não é uma crença no erro inevitável de tudo que pensamos, mas sim uma vigília sobre nossa miséria moral e intelectual. Essas teses são fruto da experiência de quem viveu em Israel duas vezes (uma num kibutz ao lado de Gaza, a outra pesquisando na Universidade de Tel Aviv) e que para lá já foi inúmeras vezes.
1. Crianças morrem em guerras. Guerras são assim: matam todo tipo de gente. É quase uma falsa virtude falar das crianças mortas em Gaza. Todo mundo sabe que guerra é uma forma da política. Ninguém gosta desse rosto humano, mas ele é humano, demasiado humano.
2. O Hamas usa crianças e escolas como escudo. Esta máfia não se preocupa com a população: crianças palestinas mortas nada mais são do que heróis martirizados. Isso é tão óbvio que não sei como nossos frequentadores de salão não percebem. O Hamas não quer paz, quer a destruição de Israel, e os civis mortos são seu trunfo.
3. Os árabes nunca se interessaram pela questão palestina. Sua retórica é pura conversa de salão. Os árabes usaram os palestinos para “jogar os judeus ao mar”. Após a derrota árabe de 1948, a Jordânia ocupou a Cisjordânia e o Egito, Gaza. Em 1967, Israel tomou esses territórios deles e não dos “palestinos”. A ditadura egípcia detesta o Hamas e seu fanatismo religioso tanto ou mais do que detesta Israel. Crer na unidade árabe é tão idiota quanto crer que americanos e europeus nos acham iguais a eles.
4. Grande parte da população israelense é paranoica, não confia em ninguém. “Onde estava o mundo quando estávamos em Auschwitz?”. Não creem em sutilezas históricas e acham que só são respeitados quando fortes. O antissionismo seria uma face do antissemitismo.
5. Não há solução militar definitiva, onde se mata um terrorista hoje, nascem dois amanhã. Mas os árabes só engoliram Israel por conta do poder militar deste e isso reforça a retórica dos falcões.
6. Muito do que Israel faz é ganhar tempo e tentar garantir que crianças não morram quando vão a escola. Muito do que o Hamas faz é minar esse cotidiano na esperança de que ao longo do tempo o terror dissolva a sociedade israelense e que o ódio religioso una os árabes.
7. A repressão diária da população palestina mina a consciência moral do soldado israelense e isso causa danos ao Estado judeu. Esses danos estão no coração do cálculo terrorista. Reagir a esse cálculo com violência é o modo imediato de enfrentar o medo do terror cotidiano.
8. É ridículo ver ocidentais simpatizarem com os grupos fundamentalistas porque nós não suportaríamos viver com eles. Essa atitude se alimenta da relação infantil que identifica Israel e os EUA aos malvados enquanto o Hamas significaria a luta pela liberdade. É tão ridículo quanto o culto a Cuba.
9. Israel vive um impasse: como sustentar a identidade judaica de Israel sem submissão às leis religiosas? O sionismo não tem futuro: ou é religioso e fanático, e fere a democracia moderna, ou é apenas político e cultural, e portanto racista. Ou Israel rompe com o sionismo e dissolve a identidade judaica do Estado. Rompe-se aqui a falácia judaica moderna por excelência porque não há judaísmo “cultural”, só religioso.
10. Judeus e árabes são primos. Primos sempre se matam quando algum patrimônio está em disputa. Este ódio milenar só diminui sob forte pressão militar, ordenamento político e ganho econômico. Só há paz se armada. Não haverá paz no Oriente Médio neste século.

HELIO MATTAR


Esta talvez seja uma hora propícia para considerar como seria um Natal em que os desejos de consumo ficassem em segundo plano


O TEMPO atual é de crise. A incerteza quanto ao futuro pesa sobre os ombros de todos com a ameaça de menor atividade econômica e desemprego. Mas o tempo é também de festa, uma festa cristã há muito associada a dar e receber presentes: o Natal. Podemos, portanto, usar a oportunidade da atual crise para repensar o papel do Natal, uma festa que passou a ser uma celebração do consumo, muitas vezes de excessos e desperdícios.
Esta talvez seja uma hora propícia para considerar como seria um Natal, uma festa em família ou entre amigos em que os desejos de consumo ficassem em segundo plano. Uma boa hora para refletir como seria o encontro com as pessoas que amamos se não houvesse a intermediação dos objetos, das coisas, dos presentes materiais. Refletir sobre o desafio de usar a imaginação e a criatividade para criar momentos felizes tendo como principais valores a simplicidade, os sentimentos e a descoberta do que é realmente importante na vida. Aliás, como fazem as crianças, especialmente as muito pequenas. Ao ganharem um brinquedo, divertem-se muito mais brincando com a caixa do que com o próprio brinquedo. Que tal se você parasse para pensar em qual seria “a caixa” de seu Natal? Algo de valor simbólico que lhe fizesse lembrar deste Natal como uma festa especial, guardada para sempre em sua memória.
Lembro-me de um Natal com meus pais em que pedi a cada um dos membros da família que trouxesse um texto para ler na ceia, um texto próprio ou escrito por um terceiro, e que tivesse um significado especial. Nunca me esqueci daquele Natal, dos textos emocionados que cada um trouxe e que se tornaram a atração principal, muito mais do que os presentes. Lembro-me dos textos. Não lembro quais foram os presentes.
Os presentes têm o papel de traduzir o afeto que sentimos pelos outros.
Por isso mesmo, na hora de presentear, por que não pensar em algo que de fato reflita o que sentimos pelo outro? Em vez de recorrer aos produtos padronizados disponíveis nos shoppings, por que não pensar em presentear a quem amamos com algo feito por nós mesmos? Ou com algo que mostre que pensamos naquela pessoa de um modo especial?
Tenho um amigo, por exemplo, que gosta muito de goiabada com queijo.
Tenho certeza de que se eu o convidasse para uma ceia de Natal em que houvesse uma boa goiabada com um ótimo queijo minas ele jamais esqueceria esse fato, pensado com carinho exclusivamente para ele. Será que o que vale ser vivido não é aquilo que será lembrado?
Talvez possamos, neste Natal, iniciar uma nova forma de pensar o consumo, a forma que deverá ser a predominante no futuro, em que substituiremos, cada vez mais, o consumo material pelo consumo imaterial, intangível, simbólico.
Uma mudança necessária, dado que, já hoje, a humanidade consome 30% a mais do que o planeta é capaz de renovar.
O mundo só será sustentável no momento em que repensarmos o estilo de vida atual, com excesso de consumo, que usa recursos naturais finitos como se infinitos fossem.
É preciso iniciar um novo tempo, com novos Natais, em que iremos presentear as pessoas não com objetos, mas com experiências: um bilhete de ônibus para um passeio ao centro da cidade, um ingresso para uma bela exposição em um museu, um texto que nos emocionou, uma palavra sincera de carinho pensada especialmente para cada pessoa. Natais em que o único consumo exagerado será o de coisas que, como por milagre, quanto mais consumimos, mais se multiplicam: amor, beleza, alegria, carinho e amizade.
Dessa forma, o presente para o outro se transforma em presente para nós mesmos, pela alegria de nos expressarmos e de compartilharmos nosso carinho e querer bem.
O Natal, assim, celebraria de fato o nascimento de algo novo, de uma nova proposta para a vida.
E não é esse, afinal, o verdadeiro significado do Natal?


A cada três horas nasce uma criança anencéfala no Brasil, a cada três horas uma mãe se faz e, salvo exceções, imediatamente se desfaz. Em apenas um dia, oito “mães” (destituídas de seu bem mais precioso) sofreram perdas psicológicas tão grandes quanto aos assassinatos em território livre. Perdas dolorosas, e psicologicamente influenciáveis nas futuras atitudes de sua vida.

A falta de escolha da mulher no ato de gerar um ser humano sem atividade vital independente faz a situação complexa e discutível perante as diversas faces da sociedade. Em lados opostos estão: a igreja católica e aliados; e os céticos, bem como os demais cidadãos que agem com laicidade; Afinal, o questionamento recai sobre a determinação – mais profunda – do início da vida, e das características e condições de sua manutenção plena e digna.

Outras questões, como as células tronco, eutanásia, e graves doenças neurológicas que precisam também ser analisadas juntamente com a questão, e só assim teremos uma resolução justa e única. Passível de amplas aplicações e com menores possibilidades de contestação.

Independente da visão pessoal – que é referente à valores intrínsecos, é desumano negar esta escolha à mulheres que sofrem por nove meses, numa gestação incompleta de sentimentos maternais. Uma sensação que só deveria ser julgada por aquelas que – infelizmente – já passaram por este sofrimento.

Cada mulher tem dissernimento para pesar e julgar sua condição psicológica e física, e daí sim dar-se ou não o direito de pôr fim à sua gravidez. Em um estado laico, onde que o início e o fim da vida ainda não foram definidos pelos estudiosos, expôr mulheres ao risco de um aborto ilegal e criminoso, que sabemos ocorrer, é desnecessário. Por que não prezar pela saúde daquelas que temos certeza de que estão vivas?

JOÃO PEREIRA COUTINHO


Tudo isso para quê? Para sermos lidos em cinco minutos com o café da manhã

TODAS as semanas, leitores vários, normalmente jovens, normalmente estudantes, normalmente universitários, escrevem-me com demanda existencial: como ser colunista, Coutinho? Eles desejam seguir as pegadas dos nomes que lêem nos jornais porque imaginam, ou suspeitam, que não existe maior privilégio ou prazer do que expor a cabeça em público.
Respondo com clichês; faço piadas; minto; por vezes, Deus me perdoe, encorajo; mas nunca digo a verdade.
E a verdade é simples: colunismo é doença.
Eu juro que não sabia. Eu juro que era como eles, mais de dez anos atrás: idealista, sonhador, facilmente corrompível, imaginando dias perfeitos em que estaria só com as minhas idéias e opiniões. E uma página branca na qual escrevê-las.
Ninguém me disse que os dias não são perfeitos quando estamos sós com as nossas idéias e opiniões. Começamos por sacrificar alguma coisa: lugares que não visitamos, amizades que não vemos, amores que vamos adiando e a vida propriamente dita que não vivemos. Mas que passa lá fora, indiferente às nossas divagações.
A solidão cresce. E, com a solidão, vem a angústia crescente de quem procura assunto, semana após semana, dia após dia, hora após hora, como um caçador ansioso e furtivo.
O problema é que a presa nem sempre vem; e nós, gelados e parados pela ausência da musa, contemplando a página em branco, nossa mortalha privada. Tornamo-nos cínicos, tão cínicos que até rezamos para que o mundo corra mal, a única forma de nos darmos bem. Como o demônio, só reinamos no caos e no inferno.
Somos Sísifo, somos a pedra que ele arrasta montanha acima, montanha abaixo, incapazes de desistência ou descanso. Quando desligamos o laptop, a cabeça continua a pleno vapor, escrevendo crônicas imaginárias ao mínimo sinal de alarme. A vida não é a vida. É sempre pretexto. É sempre contexto. É sempre texto.
Mas não é apenas a angústia que cresce. É a paranóia. O ego aumenta.
A vaidade também. Somos meros colunistas? Nada disso: como diria o poeta, somos nós os verdadeiros legisladores do universo. E acreditamos sinceramente que todos os problemas do mundo teriam solução se ao menos nos perguntassem como.
Tornamo-nos facilmente intolerantes e irascíveis. Arrogantes? Pior: arrogantes e vulneráveis. Reclamamos de incompreensões imaginárias. Todos os editores são inimigos declarados porque não entendem o que só nós entendemos, ou seja, que ninguém nos entende. Ninguém nos ama. Ninguém nos venera.
Exigimos mais espaço. Exigimos mais destaque. Exigimos lide na primeira página. Queremos, aliás, que o jornal mude de nome para acomodar o nosso nome. Folha de S. Paulo? O diabo. “Folha de S. Coutinho”. E, quando o colunista do lado escreve prosa admirável, nós jamais aplaudimos. Adoecemos de inveja, fustigamos os nossos neurônios por não termos pensado primeiro. E desejamos secretamente que ele morra atropelado. E tudo isso para quê?
Eu digo-vos para quê: para sermos lidos em cinco minutos com o café da manhã; para despertarmos risos, tédios, concórdias ou discórdias em gente anônima que jamais conheceremos; e, com alguma sorte, para acabarmos o dia abandonados e esquecidos, forrando o banheiro do gato.
Todas as semanas, leitores vários, normalmente jovens, normalmente estudantes, normalmente universitários, escrevem-me com demanda existencial: como ser colunista, Coutinho?
Respondo a única resposta possível: não sejam. Estudem. Sejam médicos, professores, economistas. Artistas. Empresários. Sejam decentes. Coerentes. Sociáveis, saudáveis, equilibrados. Úteis.
Nunca deslumbrados.
Porém, se no final de tudo isso a ambição da crônica persistir; se persistir ainda a pretensão infame e doentia de escrever e partilhar; se sentirem que a vida não faz sentido sem palavras vossas, e não simplesmente alheias; se suspeitarem de que a solidão da escrita vos é insuportável, mas deliciosamente insuportável; se não temerem uma existência efêmera, como certas borboletas, nascendo e morrendo em 24 horas; e se amarem o jornalismo, e os jornais, com a ingenuidade própria dos verdadeiros amantes, então nada mais vos tenho a dizer. Saiam daqui. Desapareçam. E arruínem as vossas existências à vontade. Eu não serei culpado de nada. Serei apenas vosso leitor com o café da manhã. E, quando a noite vier, vocês serão o banheiro infecto do meu gato.

A maternidade estimulada combinada à falta de sonhos e perspectivas das adolescentes em comunidades carentes resultam numa gravidez indesejada e imatura. Apesar da pouca idade, até as mais novas – por volta dos 13 anos – reagem com festa, e sem pensar nas conseqüências, pela chegada de sua mais nova “boneca”.

A definição clichê “crianças gerando crianças” continua perfeita para as situações atuais.  A desvalorização da moral, seja ela cristã ou simplesmente de sobrevivência adequada, está acontecendo. Nem mesmo DSTs são alvo de preocupação pois o uso do preservativo se mostra esporádico.

É possível identificar uma clara ampliação do poder de compra e aumento dos bens materiais, os quais não vem necessariamente com a estabilidade que uma criança requer nem com o aprendizado do cuidado com o próprio corpo.  Não há planejamento familiar, orçamentário ou médico.

No desdém rotineiro, vêm incluso o machismo tradicional das mulheres mais simples. É clara e direta a preferência por filhos do sexo masculino, o que por si já basta para causar traumas nas adolescentes – as quais ainda tratadas como crianças não recebem responsabilidades referentes a seus atos. Há uma grande confusão a respeito da postura esperada.

Acidentes ou não, a gravidez adolescente não é novidade. Os “acasos” apenas se repetem, de geração em geração. Até mesmo suas avós engravidaram ainda novas, um das justificativas é a falta de oportunidade que não cria grandes sonhos motivadores da maternidade matura, principalmente quando as crianças crescem com a referência apenas à suas bonecas num recluso universo infanto-maternal.

Está, de fato, provada a redução na taxa de fecundidade brasileira. Esta encontra-se inclusive menor do que em países desenvolvidos, como França e Argentina. Caso a sociedade brasileira não aproveite a situação para melhorar o país, de nada adiantará a redução, pelo menos não em termos econômicos.

Em verdade, esta diminuição pode – inclusive – prejudicar a força de trabalho daqui alguns anos, quando os recém nascidos de hoje estiverem como base de produção da economia nacional. Afinal, obedece à famosa lei da oferta e procura.

Caso aproveitemos a valorização da mão de obra para cuidar da educação, teremos alterações a longo prazo nos campos da Ética e da Postura Cidadã, podendo esperar resultados mais intensos de participação da população.

Com a diminuição da taxa de natalidade, melhora-se a absorção das escolas, e em outras situações sociais. Resultando num êxito mais concreto das políticas de Bem Estar Social, gerando – finalmente – uma diminuição nas desigualdades sociais, uma realidade antiga e também um aumento da instrução geral da população brasileira.

Um posterior aumento da renda média da população, fruto da escolaridade melhor qualificada, seria responsável pelo sustento da Previdência Social, a qual já apresenta indício de risco já que a estimativa de vida dentro do território nacional está cada vez maior e só tende a crescer.

Afinal, já dizia Thomas Malthus, a população cresce em progressão geométrica, enquanto a produção de alimento cresce somente em rítmo de progressão aritmética, causando cada vez maior fome. Esse cenário só pode ser modificado se, contradizendo Malthus, a população diminuir o crescimento equalizando com a necessidade alimentar, bem como com a disponibilidade de políticas sociais e culturais.

Já se dava no tempo de Iracema, a virgem dos lábios de mel, o uso de bebidas alucinógenas. Seu consumo, como o de outras drogas e bebidas fermentadas, era visto como uma forma de se aproximar dos Deuses num ritual raro. Afinal, assim (em tempos remotos) o risco de envolver terceiros em acidentes era praticamente nulo.

Quais as implicações sociais que fizeram resultar na prática do consumo exacerbado de álcool no país? Há falhas em diversas estruturas esperadas de uma sociedade bem estruturada: na Educação, na Postura Cidadã, e na Ética – problema este visível em diversos campos da organização social; A exemplo de nossa política de desvalorização histórico-cultural e sua pouco reconhecida influência em transformações atuais.

Já que comprovadamente temos uma origem comum de inspiração, – os indígenas e suas influências nos costumes dos colonizadores – a alteração da Lei do CTB tem respaldo no aumento contínuo das mortes no trânsito e espera provocar uma mudança nos hábitos dos brasileiros consumidores indiscriminados de bebidas alcoólicas.

A expectativa – seja de uma redução no número de mortos ou um decréscimo nas cirurgias de rotina adiadas por conta das emergências nos hospitais, que dão preferências aos recém-acidentados do asfalto (contabilizando ao todo cerca de 100 vítimas fatais por dia, sem incluir aquelas que sofrerão o resto da vida com as conseqüências) – deixa clara a necessidade de rever valores básicos.

Enquanto a legislação necessitar ser tão rígida para garantir a integridade física da população como um todo, que assim seja. É dever do poder público, e, principalmente, do civil se comprometer com a própria segurança e com a de terceiros no trânsito, uma questão de ética, postura cidadã, e educação.

A igualdade de direitos e deveres sejam individuais ou coletivos, garantidos sem distinção na Constituição que vigora atualmente no Brasil, contraditoriamente não alcança de forma homogênea toda a população.”Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros.” Infelizmente, esta constante do livro ‘”A Revolução dos Bichos” de George Orwell se mantém até hoje. E, com ela, vê-se uma discriminação ilimitada a respeito de entidades familiares que não correspondem aos padrões pré-estabelecidos.

O antropólogo Darcy Ribeiro descreveu que há registros de homossexualidade entre índios – por exemplo – desde ao menos o século 19. Segundo a – também – antropóloga Helena Rangel, a homoafetividade é tão antiga quanto a humanidade e, no mundo primitivo, alguns mitos inclusive fazem referência a esta opção sexual.

O problema da discriminação hoje pode ser maior do que o enfrentado anteriormente, devido à liberação cultural e comportamental, assim como sua consequente aproximação à influência da moral ocidental-cristã. Sendo assim, a questão do casamento homoafetivo, acaba por se resumir à um conflito entre doutrinas religiosas e afinidades ideológicas.

Um choque desnecessário, já que todo ser humano – segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos – nasce livre e iguais em dignidade e direitos. Todos são dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns às outros com espírito de fraternidade.

É inaceitável que a liberdade e a igualdade garantidas por organizações reconhecidas sejam questionadas por preceitos e preferências pessoais, sem embasamento científico de que seja prejudicial. Apenas como preconceito social não se pode interferir na vida pessoal de qualquer casal, nem questionar a sua capacidade de formar uma união estável.

“Porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.”

Machado de Assis

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